SALA 4 - O Futuro do Fandom
Sala 4: O Futuro do Fandom - Conclusão Aberta
Nós não chegamos às respostas definitivas. Se esta exposição começou no gesto afetivo e individual, ela se encerra olhando para o horizonte coletivo, onde as fronteiras entre humano, comunidade e máquina se embaralham.
Nossa jornada nos levou a um território de tensões profundas. Como se posicionar quando uma comunidade que sempre operou nas zonas cinzentas do direito autoral — o fandom — se vê na posição de defender a propriedade intelectual? A nossa dificuldade (Ana e Davi) em encontrar uma resposta simples é, na verdade, o ponto de partida mais honesto. A situação não é preto no branco.
Para entender essa complexidade, compartilhamos a estrutura que temos discutido, inspirada pelo artigo "Fandom meets artificial intelligence: Rethinking participatory culture as human–community–machine interactions" (Li & Pang):
Ana: "Como artista que já recebe comissões por fanarts,vejo que a IA não questiona apenas a ética, mas um ecossistema econômico emergente. O fandom sempre foi uma 'economia mista': temos a troca de presentes afetivos, mas também artistas construindo carreira e recebendo pelo seu trabalho habilidoso (skillfull). A IA comercial desequilibra isso duas vezes: primeiro ao usar nosso trabalho sem consentimento para treinar seus modelos, e depois ao inundar o mercado com alternativas que desvalorizam a arte feita com intenção humana. A pergunta que faço é: se nós, artistas, já provamos que há valor econômico nessa cultura, por que não somos vistos como partes legítimas nessa conversa sobre o futuro criativo?. Além disso, o que vendo nas minhas comissões (de K-pop por exemplo) não é apenas um desenho,mas uma narrativa visual única criada para um fã específico. A IA pode gerar 100 imagens em segundos, mas será que pode reproduzir o processo colaborativo, a leitura de nuances e a criação de um símbolo afetivo que carrega a história de uma conexão entre pessoas? Eu quero acreditar que o meu trabalho vale não só pela técnica, mas por ser um serviço de curadoria emocional. A questão não é impedir a tecnologia, mas como criar mercados que reconheçam e valorizem essa diferença fundamental."
Davi: "Quando faço uma fanart comissionada,meu estilo — minha 'mão' — é o produto. É o que os fãs buscam e pagam para ter. A IA pode imitar um estilo, mas será que pode replicar a biografia visual por trás dele? Os anos de prática, influências únicas, decisões intuitivas? Seria o que a IA oferece uma paródia da autoria? Tem a forma, mas não a história? Para comunidades baseadas em histórias compartilhadas, isso é profundamente confuso. A valorização do 'feito à mão' pode se tornar um ato de resistência e um selo de autenticidade num mercado cada vez mais saturado de conteúdo sintético? Além disso, nas minhas comissões, acredito que os clientes não compram apenas a imagem final; eles compram o processo: os sketches iniciais, as trocas de ideias, a sensação de estar colaborando na criação. Será que a IA elimina essa jornada? Minha questão é que, ao normalizarmos a geração instantânea, dessensibilizamos o valor do processo criativo? Como artista, quero acreditar que o 'como' se cria é tão importante quanto o 'o que' se cria — e é nesse 'como' que reside a conexão humana que sustenta os fandoms."
O artigo nos ajudou a sair do impasse ao propor que enxerguemos a cultura participativa como Interações Humano-Comunidade-Máquina. Não é só 'nós e a IA'. É 'nós <-> a comunidade de fãs <-> a IA'. E essa relação redefine tudo:
· O Trabalho do Fã é Facilitado e Desvalorizado: A IA pode gerar 100 imagens em segundos. Isso pode desvalorizar o trabalho afetivo que era a base do reconhecimento dentro da comunidade. O valor simbólico de uma fanart feita à mão, com horas de dedicação, muda radicalmente.
· As Relações se Tornam Ambíguas: Chatbots de IA nos permitem "conversar" com personagens, aprofundando uma relação de intimidade que, ao mesmo tempo, é vazia — é um eco algorítmico, não uma conexão real.
· As Realidades são Abaladas: Deepfakes e conteúdos sintéticos podem confundir o que é real e o que é ficção, criando desconfiança dentro da própria comunidade.
Como nos posicionamos, então?
A reflexão é principalmente sobre como a IA está reconfigurando as relações na comunidade que amamos. Nossa reflexão deve ser ética e coletiva: a comunidade pode criar normas, valorizar explicitamente a arte "feita à mão" e reforçar os valores de autenticidade e afeto que a IA não pode tocar.
A nossa arte vale não pelo seu status legal, mas pelo lugar que ocupa na teia de interações humano-comunidade-máquina. E é nesse lugar — de afeto, história e reconhecimento pelos pares — que a IA, por enquanto, não consegue entrar.
Visite a reflexão: O Fandom como Motor da Economia Criativa
Não temos as respostas finais. Mas acreditamos que a jornada para encontrá-las deve ser coletiva.
Por isso, encerramos esta sala com um convite. Este blog é um ensaio visual, mas também pode ser um fórum. Nos comentários abaixo, conte para a gente:
Como você acha que a IA vai reconfigurar a economia do afeto dentro dos fandoms?
O que a sua comunidade pode fazer para preservar o valor do gesto humano?
A curadoria foi nossa, mas a conversa é de todos. Vamos em frente.